segunda-feira, 2 de julho de 2012

A nova versão da Roda dos Expostos

"No curta-metragem “Roda dos Expostos” (2001), da cineasta Maria Emília de Azevedo, o protagonista Hector, rejeitado pela mãe, volta todas as noites ao local onde foi abandonado na esperança de encontrá-la novamente.

O título do filme faz referência a um antigo e engenhoso mecanismo usado para o abandono de crianças recém-nascidas. Moacyr Scliar explicou com precisão como funcionava, em artigo que escreveu há tempos para a Folha de S. Paulo:
"Roda dos expostos" recebia bebês rejeitados até o final dos anos 40. Feitas de madeira, eram geralmente um cilindro oco que girava em torno de seu próprio eixo e tinha uma portinha voltada para a rua. Sem ser identificada, a mãe deixava seu bebê e rodava o cilindro 180 graus, o que fazia a porta ficar voltada para o interior do prédio, onde alguém recolhia a criança rejeitada. Em São Paulo, bastava a campainha soar no meio da noite para as freiras da Santa Casa terem a certeza de que mais uma criança acabava de ser rejeitada.

Em inglês, a Roda dos Expostos chama-se Foundling Wheel, bem comum na Europa Medieval, e nos séculos 18 e 19. Poucos sabem, mas diz-se que o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau chegou a abandonar não somente um, mas cinco dos filhos que teve na Roda dos Expostos…

No século passado, uma releitura da Roda dos Expostos foi introduzida na Europa, sob o nome de Baby Hatch ou Baby Box. A ideia é a mesma: proteger os bebês rejeitados pelos pais.

As “caixas” são encontradas do lado de fora de hospitais ou centros de saúde. Dentro dela, o pai ou a mãe que abandonar o filho vai encontrar ambiente aquecido e colchão forrado com lençóis limpos. Sensores na cama avisam às enfermeiras que uma nova criança chegou.

O debate em torno da Baby Box é intenso, como não poderia deixar de ser, dada a essência moral e ética do assunto e o que dispõem as leis de cada país. A Holanda, por exemplo, protege a mãe que abandona o filho, mas, aqui na Inglaterra, a ação é considerada crime.

Na Alemanha, por sua vez, pais que rejeitam os filhos, e se arrependem, podem levá-los de volta. Se isso não acontecer dentro de 8 semanas, a criança é liberada para adoção.

Maior crítica do assunto, as Nações Unidas afirmam que o uso das Baby Boxes viola o artigo 8 da Convenção dos Direitos das Crianças, que lhes assegura o direito de conhecer a própria identidade.
Nos últimos doze anos, mais de 400 crianças foram abandonadas nas Baby Boxes europeias.

Diante da realidade, e de tantas notícias sobre recém-nascidos brasileiros encontrados em latas de lixo, a ideia das Baby Boxes ainda me soa estranha, mas certamente mais segura para seres cujo primeiro grande desafio será, com poucos dias de vida, sobreviver ao abandono.
É tema para uma boa discussão."

Mariana Caminha, no BlogdoNoblat.com.br

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