segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Educação de qualidade deveria ser direito, não prêmio dado por sorteio

O clima é tenso e o silêncio predominante. Centenas de pessoas lotam o auditório com o olhar fixo para o palco, onde uma mulher gira uma urna repleta de papéis. A cena poderia retratar perfeitamente um sorteio da Mega-Sena. Não retrata, mas algumas vidas ali presentes também poderão mudar. O cenário em questão refere-se ao sorteio de vagas para o primeiro ano do Ensino Fundamental do tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Com 173 anos de existência, completados no início deste mês, a instituição de ensino mantida pelo Governo Federal recebe, a cada final de ano, centenas de pais ávidos para conseguir uma vaga para os filhos no colégio reconhecido pelo ensino de qualidade acima da média do oferecido na rede pública. Na lista de ex-alunos estão alguns personagens ilustres, entre eles, a atriz Fernanda Montenegro, o poeta Manuel Bandeira e o ex-presidente marechal Floriano Peixoto.
“O sucesso da nossa fórmula está no corpo docente. Cerca de 40% dos nossos professores possuem mestrado e, 10%, doutorado”, informa a diretora-geral Vera Rodrigues.
Atualmente, o Pedro II possui oito unidades espalhadas pela Região Metropolitana do Rio, mas apenas cinco recebem alunos do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. A partir do 6º ano, todas as unidades recebem estudantes, mas o ingresso, assim como no Ensino Médio, acontece por provas. O ingresso por sorteio ocorre apenas no primeiro ciclo do Ensino Fundamental.
Neste ano, foram registradas mais de seis mil inscrições para as 438 vagas existentes. Na unidade de São Cristóvão, na zona norte do Rio, que abriga a direção-geral, foram oferecidas 150 vagas e contabilizadas 2.050 inscrições.
“Isso aqui parece jogo entre Vasco e Flamengo”, compara um pai, tamanho é o clima tenso no auditório do colégio em São Cristóvão minutos antes do início do sorteio, ocorrido nesta sexta-feira (10). O primeiro nome é tirado da urna e lido em voz alta. Silêncio no local. O responsável pela criança não estava presente. A situação foi a mesma com o segundo nome. O gelo só foi quebrado no terceiro .
“Aqui! Aqui!”, comemora Tatiana Braga, aos gritos e com os braços para o ar, ao escutar o nome da filha caçula. “Agora estou aliviada. Pagar colégio está muito caro”, diz a professora, moradora da Tijuca, que já tem a filha mais velha estudando na instituição de ensino centenária.
O procedimento continua. Alguns sorteados são mais contidos, sequer levantam da cadeira ao ouvir o nome do filho. Quem ainda não teve a mesma sorte reza, outros roem unhas. “Mãe, tomara que eu seja sorteada. Torce por mim”, pede uma menina à mãe, mostrando maturidade de gente grande.
Ao ouvir o nome do neto, a aposentada Júlia Moreno começa a chorar, se ajoelha e levanta as mãos para o alto, segurando um terço. “Antes do nome ser lido, eu já estava dizendo ‘obrigada Senhor por já estar aqui’. Temos que agradecer porque muitas pessoas não puderam sequer pagar o valor da inscrição”.
Mãe de três filhos, sendo um ex-aluno que hoje trabalha na Petrobras, a moradora de São Cristóvão revela que já vinha cumprindo uma maratona espiritual há semanas para o sorteio. “Fui à igreja e coloquei o nome do meu neto embaixo do Santíssimo e rezava diariamente o terço da misericórdia. Ao entrar no colégio, eu disse: ‘Senhor, entre primeiro na minha frente’”, conta.
Desempregada e estudando para concursos, Laires Lima também apelou para a fé. E deu certo. “Acendi uma vela antes de sair de casa. É muito bom saber que meu filho tem um futuro garantido. O ensino é muito bom e aqueles que se dedicam praticamente saem daqui direto para uma faculdade pública”, diz.
Viúva, a moradora de Duque de Caxias foi às lágrimas ao ouvir a boa nova e ligou para a mãe para compartilhar. “Ela disse para meu filho que Deus estava nos olhando lá de cima e ele disse: meu pai também’”, relata, emocionada.

Matéria completa no portal do IG

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