sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Violência sem limites

O uso da violência alcançou uma proporção tão exagerada no Rio de Janeiro que passamos a achar natural e inevitável que um corpo seja colocado em um carrinho de supermercado e exposto no meio da rua. A análise é do coordenador do Observatório de Favelas, Jailson de Souza, que culpa a corrida armamentista --tanto dos criminosos, quanto da polícia-- pela situação de guerra que a cidade enfrenta hoje.

"Não é a primeira vez que isso acontece. O que vemos é uma superação dos limites e um recrudescimento da violência. Vamos assimilando níveis de barbárie cada vez maiores. Desta vez, um helicóptero foi derrubado. Vai chegar o dia em que um caveirão será destruído pelos criminosos", disse, comentando os conflitos que resultaram na queda de um helicóptero da PM no sábado (17).

O especialista afirma que enquanto não colocarem um fim à política bélica, dos agentes se armarem cada vez mais para enfrentar pessoas também cada vez mais armadas, nenhum problema será resolvido e a situação no Rio de Janeiro só vai piorar.

"Desde a década de 80, a polícia insiste nisso e o número de mortos só cresce. Temos 6.000 mortes todos os anos no Rio. O número de desaparecidos aumentou de 4.000 para 9.000 em cinco anos. Isso significa que muitas pessoas foram assassinadas e tiveram o corpo ocultado pelos criminosos", destaca.

Segundo ele, o primeiro passo para que as coisas mudem é reconhecer que esse é um modelo falido. "Depois, a polícia precisa agir com inteligência e prevenir os problemas, prender os líderes do crime e desarticular permanentemente o poder paralelo. A polícia tem que chegar antes e não depois que a guerra já explodiu", afirma.

Além disso, defende, o Brasil precisa de uma política efetiva de combate ao tráfico de armas. "As armas que derrubaram o helicóptero são facilmente detectáveis e mesmo assim foram contrabandeadas. A sociedade só tem olhos para o tráfico de drogas, mas é preciso combater o acesso às armas".

Souza é contra a intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro. Ele lembra que quando houve a ocupação do morro do Alemão, em 2007, 19 pessoas morreram. "Agir como a Polícia Militar já faz não adianta nada", ressalta.

Ele afirma ainda que, no longo prazo, o maior desafio é recuperar a soberania do Estado e articular diferentes instâncias, passando pela integração das polícias e pelo envolvimento real da sociedade.

"É preciso querer mudar. Não podemos achar que a barbárie é inevitável. Não podemos desumanizar. Houve uma privatização da soberania, porque o Estado perdeu o controle dos territórios. Os grupos criminosos se sustentam pelo domínio dessas áreas e são eles que definem a ordem social. Hoje, esses territórios estão nas mãos das milícias e do tráfico de drogas. Para que isso mude, é preciso um processo de pressão muito maior", conclui

Uol Notícias

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